Interview Eduardo Valente / entrevista com Eduardo Valente

Am 8. May 2011 von flumenfilm | publications


aus Matices 64 (03/2010) – www.matices.de

Uma alegria muito perto da dor. O sentimento de viver no Rio de Janeiro.

Interview mit dem brasilianischen Filmemacher Eduardo Valente über sein Langfilmdebut No meu lugar

Bei einem Polizeieinsatz fallen Schüsse und ein Mensch kommt ums Leben. Der beteiligte, vom Dienst suspendierte Polizist versucht, die verkorkste Beziehung zu seiner Tochter wieder ins Lot zu bringen. Eine Frau löst zusammen mit ihrer Familie das Haus auf, das sie Jahre zuvor mit ihrem verstorbenen Ex-Mann bewohnt hatte. Und ein Dienstmädchen entdeckt die Liebe ihres Lebens. Drei Handlungsstränge, alle in unmittelbarer Nachbarschaft in Rios Stadtteil Laranjeiras, deren Verbindung sich dem Zuschauer aber nur ganz allmählich erschließt. Und der Hergang des verbindenden Moments – besagter tödlicher Zwischenfall – bleibt zudem auch noch unsichtbar, ist nur auf der Tonspur des Films zu hören.

Es sind diese ungewöhnliche Erzählstruktur sowie der persönliche unvoreingenommene Blick auf die Stadt Rio de Janeiro und die oftmals so klischeebeladenen Themen der sozialen Ungleichheit und der Gewalt, die den Film No meu lugar (Eye of the Storm) des jungen Regisseurs Eduardo Valente auszeichnen. Das liebevolle Portrait seiner Heimatstadt ist Valentes Langspielfilmdebut. Schon Valentes erster Kurzfilm, der sehr feinfühlige und auch formal äußerst interessante Um Sol alaranjado (Das Leuchten der Sonne) sorgte für Aufsehen, als er 2002 in Cannes den Cinéfondation-Wettbewerb gewann. Der von Walter und João Moreira Salles´ Firma Videofilmes produzierte No meu lugar hatte 2009 ebenfalls auf dem Festival in Cannes Premiere und war u.a. auch auf dem Hamburger Filmfest in der Latino-Reihe VITRINA (siehe auch das Interview mit VITRINA-Kurator Roger Koza) zu Gast. Auf diversen Festivals sowie bei seiner Kinoauswertung führte der Film zu durchaus unterschiedlichen Reaktionen, so dass man auf weitere Werke von Valente gespannt sein darf – sofern er denn dazu kommt, weitere Filme zu machen, denn der 34-Jährige arbeitet auch und vor allem als Filmkritiker ( http://www.revistacinetica.com.br ) und als Kurator diverser Filmreihen. Und ist nebenbei auch noch begeisterter Fußballfan, wie er im Matices-Gespräch mit Philipp Hartmann betont.

Você poderia descrever, para quem não viu o seu filme, de que se trata e qual e o seu enfoque?

O filme é uma tentativa minha de construir através do uso da ficção um sentimento semelhante ao que eu tenho do que é viver no Rio de Janeiro. É um pouco como o que eu sinto do Rio de Janeiro, só que ao invés de usar a primeira pessoa pra isso, eu uso a ficção, espalhada por vários personagens que nada têm a ver com a minha história de vida, mas que de alguma maneira me representam.

Você poderia descrever um pouco mais este seu sentimento de viver no Rio e como ele se transmite no filme? Qual a diferença do seu enfoque em relação aos outros sobre a realidade contemporânea do Rio de Janeiro, que muitas vezes usam os velhos e conhecidos clichês?

A melhor maneira de responder isso é dizendo que eu pensei muito em querer fazer um filme que tivesse uma energia boa, onde a violência surge como presença intrínseca no cotidiano carioca, mas sem impedir que as pessoas vivam, amem, sigam adiante. Só que o filme acabou me passando uma rasteira, e saindo algo muito mais perto da melancolia do que eu jamais pensei que ele fosse ser. Então, eu acho que acaba sendo isso mesmo o meu sentimento do Rio: uma alegria muito perto da dor. O que eu acho que o filme tem de mais diferente dos seus contemporâneos no que se refere ao tema da violência é deixar claro que pra ele as pessoas são o que há de mais importante, antes de qualquer mensagem ou espetáculo.

Outra coisa que me fascinou no filme, foi a estrutura narrativa. A ideia de contar três histórias em três linhas temporais diferentes. Ao vê-lo pela primeira vez, sem saber praticamente nada sobre o filme, pareceu-me muito interessante descobrir somente aos poucos ou, na verdade, somente no final, como se relacionam suas diferentes histórias e personagens. Você poderia falar um pouco sobre o conceito de “tempo” em No meu lugar.

Na verdade, os tempos dentro de cada uma das narrativas são bem lineares. Mas a junção destes três tempos é que não é. Para mim cada tempo destes ilumina algo diferente sobre o quanto a violência é poderosa e como ela ultrapassa os limites de um determinado acontecimento. É também uma forma de pensar e dizer que um determinado acontecimento não se dá solto no tempo, mas sim se segue a vários momentos e tem inúmeras repercussões futuras.

Por quê a decisão de não mostrar o momento-chave?

Olha, os motivos são muitos. Mas o principal deles é que eu acho que um evento violento como aquele tem um tempo muito subjetivo e particular para cada pessoa envolvida. Tudo acontece muito rápido e ao mesmo tempo parece durar pra sempre. E ninguém nunca sabe exatamente o que aconteceu, pois para cada uma das 3 pessoas ali tenho certeza que foi algo diferente. Então, não mostrar, não dar àquele momento o peso da verdade que uma imagem tem, significa respeitar essa experiência absolutamente pessoal de cada um dos ali presentes. E assim tentar não atribuir culpas, não ter clareza do que deu errado, de quem errou mais que quem.

As diferentes personagens do filme, que também pertencem a classes sociais distintas, são divididas pela estrutura narrativa e suas vidas e historias não se relacionam.

Na verdade, tem essa separação, mas, ao mesmo tempo (e talvez isso seja algo que só fique mais claro pra quem conhece bem o Rio), as histórias se localizam muito perto umas das outras, nas cercanias de Laranjeiras, um mesmo bairro carioca. Então, existe aí uma observação dupla: que se vivem vidas separadas e diferentes sim, mas que se partilha um mesmo espaço geográfico e urbano (diferente, por exemplo, de cidades que têm os pobres na periferia e os ricos no centro, etc. e tal). Então eu acho que são vidas distantes e muito próximas, ao mesmo tempo.

Comparado com alguns outros filmes que passaram no programa VITRINA do Festival de Hamburgo, do ponto de vista da linguagem cinematográfica, você optou por uma forma mais convencional (fora a complicada estrutura narrativa e a decisão de não mostrar o momento-chave). Você chegou a considerar o uso de uma linguagem mais radical, como em Um Sol Alaranjado?

Não, eu tinha bastante clareza que o filme tinha que chamar em quase nada a atenção para quem o fez, porque eu desejo que o espectador sinta-se diretamente ligado àquelas pessoas na tela, então nenhuma das minhas opções formais, do roteiro à montagem final, tenta chamar a atenção pra nada além do que as pessoas. Eu me inspirei muito nisso numa frase do Manoel de Oliveira, que sempre diz que nos seus filmes já acontece muita coisa complicada (no sentido de como a vida é complicada, como o ser humano é complicado), pra que ele ainda tente complicar mais com a linguagem. Às vezes temos que ser frontais, e acho que este filme pedia isso.

Como foi a recepção do filme no Brasil?

São muitas recepções né? Digo, se tem uma coisa que eu aprendi com meus anos no cinema, seja como espectador, crítico, cineasta, é que um filme é refeito cada vez que um espectador o assiste e se coloca na tela. Então, o filme teve muitas respostas distintas, de pessoas que o detestaram profundamente, a outros que simplesmente o acharam fraco a alguns elogios muito firmes. Na própria crítica, acho que houve essa divisão. Mas, mais do que elogios ou xingamentos, o que eu senti nos vários debates que fiz sobre o filme pelo Brasil (mas também em festivais lá fora) é que ele chega de maneira muito forte a algumas pessoas, por mais diferentes que elas sejam. E desde lá no Sol Alaranjado que isso é o que eu busco, acima de tudo.

Você já tem algum novo filme em mente?

Olha, eu não sou exatamente um cineasta full time. Então, meus projetos a curto prazo hoje são continuar o trabalho na Cinética (www.revistacinetica.com.br), que é talvez meu principal projeto constante, além dos trabalhos que tenho feito como curador em mostras e festivais e escrevendo textos pra lugares, o que paga as contas na maior parte do meu tempo. Como cineasta, estou ainda começando a sentir vontade de alguma outra história pra contar, bem devagar e no meu tempo. Nenhuma ainda chegou no ponto, mas posso dizer que a que está mais perto é um filme de terror.

Ah, e meu projeto de verdade no momento é, como você, ver a Copa. TODAS as partidas, de preferência.



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